sábado, 16 de abril de 2011

Qual foi o fruto proibido? O que realmente aconteceu com Adão e Eva?

A história de Adão e Eva é uma das narrativas mais conhecidas da Bíblia — e também uma das que mais receberam detalhes que não estão no texto bíblico. Afinal, o fruto proibido era uma maçã? A serpente era Satanás? O pecado de Adão e Eva teve alguma relação com sexo? E por que a decisão deles trouxe consequências tão profundas? Para responder a essas perguntas, precisamos começar pelo que Gênesis realmente diz. O que Deus proibiu no Jardim do Éden? Segundo Gênesis, Deus colocou o homem no Jardim do Éden e lhe deu liberdade para comer das árvores do jardim, com uma única exceção: a árvore do conhecimento do bem e do mal. A ordem era clara: «“Mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás.” Gênesis 2:17» Portanto, o centro da narrativa não é simplesmente um alimento proibido. Havia uma ordem dada por Deus e a possibilidade de obedecê-la ou desobedecê-la. O fruto proibido era uma maçã? A Bíblia não diz. Gênesis simplesmente o chama de “fruto” da árvore do conhecimento do bem e do mal. Não informa que espécie de fruto era. A associação com a maçã tornou-se muito popular na arte e na cultura ocidental, mas não deve ser apresentada como informação bíblica. O importante para a narrativa não é descobrir qual era o fruto, mas entender o que aconteceu quando o ser humano decidiu contrariar aquilo que Deus havia determinado. Como aconteceu a tentação? Gênesis 3 apresenta uma serpente descrita como mais astuta que os animais do campo. Ela questionou a ordem de Deus e disse à mulher que ela não morreria ao comer do fruto. Além disso, afirmou que seus olhos seriam abertos e que ela conheceria o bem e o mal. Eva viu que o fruto parecia bom para alimento, agradável aos olhos e desejável para alcançar conhecimento. Então comeu e deu também a Adão, que estava com ela, e ele comeu. A desobediência, portanto, não aconteceu por acidente. A palavra de Deus havia sido colocada em dúvida e sua ordem foi deliberadamente transgredida. O pecado de Adão e Eva foi uma relação sexual? Não. Essa interpretação não encontra apoio no próprio relato de Gênesis. Antes da queda, Deus já havia dito ao homem e à mulher: «“Frutificai e multiplicai-vos, e enchei a terra.” Gênesis 1:28» Além disso, Gênesis 3 descreve explicitamente a transgressão como comer do fruto que Deus havia proibido. O problema central foi a desobediência a Deus, e não a relação conjugal. O que aconteceu depois? Depois de comerem do fruto, Adão e Eva perceberam que estavam nus e fizeram para si coberturas de folhas de figueira. Quando perceberam a presença de Deus no jardim, esconderam-se. Então aparece algo que continuaria marcando a humanidade: em vez de simplesmente assumir sua responsabilidade, Adão apontou para Eva, enquanto Eva apontou para a serpente. Deus anunciou as consequências da transgressão. A existência humana passaria a ser marcada por sofrimento, conflito, trabalho penoso e, finalmente, morte. Adão e Eva foram expulsos do Jardim do Éden, e querubins foram colocados a leste do jardim, juntamente com uma espada flamejante, para guardar o caminho para a árvore da vida. É importante observar um detalhe: Gênesis não diz que eram quatro anjos nem que havia quatro entradas no Éden. O texto simplesmente menciona “querubins”. A serpente era o Diabo? Em Gênesis 3, o personagem é apresentado simplesmente como “a serpente”. Entretanto, outros textos bíblicos posteriores utilizam a expressão “antiga serpente” ao falar do Diabo e Satanás: «“E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, chamada o Diabo, e Satanás, que engana todo o mundo.” Apocalipse 12:9» Apocalipse 20:2 utiliza linguagem semelhante. Por isso, a tradição cristã identifica a serpente do Éden com Satanás. É importante, porém, distinguir as duas etapas: Gênesis apresenta a serpente; Apocalipse associa a imagem da antiga serpente ao Diabo e Satanás. E quem era Lúcifer? Aqui também é necessário algum cuidado. Isaías 14 contém a famosa expressão traduzida em algumas versões como “estrela da manhã” e que, através da tradução latina, ficou associada ao nome “Lúcifer”. Entretanto, o contexto imediato de Isaías 14 é uma sátira dirigida ao rei da Babilônia. Ao longo da história cristã, partes dessa passagem também foram interpretadas como uma representação da queda de Satanás. Essa é uma interpretação teológica tradicional, mas não devemos ignorar o contexto original da passagem. Da mesma maneira, Apocalipse 12 descreve Miguel e seus anjos lutando contra o dragão e seus anjos. O texto identifica o dragão como Diabo e Satanás. A Bíblia, entretanto, não diz nesse trecho que Satanás era “o anjo preferido de Deus”, como às vezes aparece em tradições populares. O que é o pecado original? A expressão “pecado original” não é o nome do fruto. Ela é um conceito teológico utilizado para explicar a condição humana após a queda narrada em Gênesis 3. O Novo Testamento estabelece uma relação especialmente importante entre Adão, pecado e morte: «“Portanto, como por um homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado a morte, assim também a morte passou a todos os homens...” Romanos 5:12» Paulo desenvolve essa comparação apresentando posteriormente Cristo como aquele por meio de quem vêm graça, justificação e vida. Existem diferenças entre tradições cristãs sobre exatamente como a condição de Adão é transmitida ou compreendida. Entretanto, há amplo reconhecimento no cristianismo de que Gênesis descreve uma ruptura entre a humanidade e Deus provocada pelo pecado. Adão e Eva abandonaram Deus depois do Éden? A Bíblia não diz isso. O texto antigo deste artigo afirmava que Adão e Eva teriam se recusado a buscar Deus e permanecido sem arrependimento até a geração de Enos. Essa conclusão vai além das informações fornecidas por Gênesis. Gênesis 4:26 realmente afirma que, nos dias de Enos, “se começou a invocar o nome do Senhor”. Porém, isso não significa necessariamente que ninguém anteriormente buscasse ou adorasse a Deus. Há uma evidência bastante clara disso no próprio capítulo anterior: Caim e Abel já apresentavam ofertas ao Senhor. Por que Deus aceitou Abel e rejeitou Caim? Gênesis relata que Caim, agricultor, apresentou uma oferta do fruto da terra. Abel, pastor, apresentou dos primogênitos de seu rebanho e de sua gordura. Deus atentou para Abel e sua oferta, mas não para Caim e sua oferta. O texto de Gênesis não afirma que Deus rejeitou Caim simplesmente porque sua oferta não continha sangue. Também não descreve uma regra segundo a qual ambos deveriam obrigatoriamente apresentar um cordeiro. O Novo Testamento acrescenta uma informação importante: «“Pela fé Abel ofereceu a Deus maior sacrifício do que Caim...” Hebreus 11:4» Isso direciona nossa atenção não apenas para aquilo que estava sobre o altar, mas também para a disposição daquele que ofertava. O próprio Deus perguntou a Caim: «“Se procederes bem, não é certo que serás aceito?” Gênesis 4:7» Caim, entretanto, permitiu que a ira contra seu irmão crescesse. Posteriormente matou Abel, cometendo o primeiro homicídio registrado na Bíblia. Deus mandou fogo do céu para consumir a oferta de Abel? Gênesis não diz como Caim e Abel perceberam que uma oferta havia sido aceita e a outra não. Em outros episódios bíblicos, Deus realmente demonstrou sua aprovação de um sacrifício enviando fogo. Isso acontece, por exemplo, em Levítico 9:24, Juízes 6:21 e 1 Reis 18:38. Por causa desses episódios, alguns intérpretes sugeriram que algo semelhante poderia ter acontecido com Abel. Mas isso é uma hipótese, não uma informação fornecida por Gênesis. Da mesma forma, a Bíblia não diz que Abel precisou temperar um cordeiro com ervas, deixá-lo sem acender e esperar que Deus enviasse fogo. Esses detalhes não fazem parte da narrativa de Gênesis 4. Então qual é a grande mensagem da história? A história do fruto proibido é muito maior do que a curiosidade sobre qual fruta Adão e Eva comeram. Gênesis apresenta o ser humano recebendo de Deus liberdade, responsabilidade e um limite. A serpente coloca a palavra de Deus em dúvida. O homem e a mulher ultrapassam esse limite e imediatamente surgem vergonha, medo, acusações e ruptura. No capítulo seguinte, o pecado já aparece produzindo inveja, ira e homicídio entre dois irmãos. A narrativa mostra, assim, uma progressão: a ruptura com Deus transforma também a relação do ser humano consigo mesmo, com o próximo e com a criação. Mas a Bíblia não termina em Gênesis 3. O mesmo Novo Testamento que relaciona a entrada do pecado e da morte a Adão apresenta Jesus Cristo como resposta de Deus para essa condição. Por isso, para a fé cristã, a história iniciada no Éden não é somente a história de como o pecado entrou no mundo. É também o começo de uma narrativa de redenção.